As chaves do círculo do Mestre Goffredo.


A Folha de hoje publica franciscano artigo a respeito do círculo de conversas promovido pelo professor Goffredo da Silva Telles Júnior e expande o assunto para a importância de tais agremiações de realização de idéias.

A história do Largo é recheada dessas reuniões espontâneas, com gente se reunindo para debater mediante pagamento único de uma taxativa vontade de desenvolver o pensamento. E mais nada.

Exemplo mais recente foi o caso do grande professor Antonio Luís Chaves Camargo, falecido em 2007, que promoveu até o fim da vida suas reuniões sobre criminologia, e que certamente renderam o engradecimento dos ideais da ciência penal.

Cobrava dos seus alunos apenas que comparecessem à reunião quando houvesse tempo disponível. Todo o restante – conhecimento, bom humor, dedicação – era gratuito. O saudoso professor batizava as reuniões carinhosamente de “Vai quem quer”. E muita gente queria – e a coisa toda levada muito a sério, pois era a união pelas idéias.

Estas agremiações são o retrato da parcela histórica do Largo São Francisco, vinda sem interrupções desde 1827, e que realizou feitos como o Abolicionismo, a Revolução de 32, o “Petróleo é Nosso”, as Diretas-Já, os Caras-Pintadas.

São movimentos remunerados  unicamente pela satisfação de realizar idéias. Produziram gratuitamente a personalidade de pessoas como Teixeira de Freitas, Boris Fausto, Castro Alves, Rui Barbosa, Mindlin, Joaquim Nabuco, Barão de Rio Branco, Álvares de Azevedo, Julius Frank, Fagundes Varela, Antonio Candido, Pignatari, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, José de Alencar, Olavo Bilac, Menotti del Picchia, Raul Pompéia, Paulo Autran.

A parcela menor – financista e imediatista – é movida puramente pela remuneração em pecúnia até mesmo nas relações pessoais. Isto gera esquisitices como a ditadura de 1964, além de um ou outro movimento por poder pessoal. Mas o financismo, felizmente, sempre foi relegado ao canto escuro do Largo, e invariavelmente dura pouco e tem poucos adeptos.

O centro do Pátio, iluminado e orgulhoso, nunca ficará a reboque do  patrimonialismo. Deixemos novamente de lado o que não é fundamental. O mar de dinheiro para a turma do Prouni high society nadar. Para a Velha  Academia do Largo São Francisco, continua a construção da História das idéias.


São Paulo, segunda-feira, 27 de julho de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

O Círculo das Quartas-Feiras

CÁSSIO SCHUBSKY

Muito da história brasileira pode ser contado a partir dos círculos de debates, grupos de discussão, entidades muitas vezes sem estatuto

MONTANHAS de escândalos. Crise política atrás de crise política. Congresso em frangalhos. Afinal, os partidos políticos são fadados aos joguetes inescrupulosos do poder? A política é mesmo suja, todo mundo é corrupto e estamos definitivamente perdidos? Há salvação no reino (podre) da Dinamarca?
Antes que o leitor largue mão da leitura deste texto, esclareço que não defenderei o óbvio: a necessidade de uma reforma política ampla para minimizar os efeitos funestos das nossas seculares práticas políticas. O Brasil tem salvação: depois de muito dilúvio, haverá a bonança -só que, desta feita, para o povo, para a democracia, para os valores autênticos da cidadania ultrajada. E mais não digo, para não transformar este quadrado de papel em palanque.
Gostaria de abordar uma outra faceta do ato de fazer política. Falar dos círculos de debates, dos cenáculos, dos grupos informais de encontros que tanto bem podem fazer às comunidades, às cidades e até ao país, quiçá ao mundo inteiro.
Muito da história brasileira pode ser contado a partir dessas entidades muitas vezes sem estatuto, sem burocracia, que vivem da vontade de mudar o mundo. Exemplos: o grupo dos inconfidentes em Minas, que fez a conjuração e não iria, obviamente, formalizar seus pleitos em documentos oficiais escritos e ao alcance das autoridades.
O movimento abolicionista, que reunia, por exemplo, jovens estudantes como Castro Alves, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco em círculos como o Ateneu Paulistano. Ou, então, os inúmeros agrupamentos republicanos, aglutinando de estudantes a fazendeiros, de militares a rebelados de toda ordem.
Às vezes as rodas informais de debate e ação política se escondem nas sombras, menos por ardil e mais por anonimato imposto pela história. Eu mesmo tive o enorme privilégio de participar de um desses centros de convivência com importante atuação política. Trata-se do Círculo das Quartas-Feiras.
Fundado em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal, o círculo, como ficou carinhosamente conhecido, reunia, semanalmente, um seleto grupo de estudantes em torno do saudoso professor Goffredo da Silva Telles Júnior. Na Faculdade de Direito da USP, em cafés da manhã em hotéis ou no escritório do querido mestre, nosso Círculo das Quartas-Feiras reuniu-se por anos a fio, engrandecendo seus membros pela rica convivência.
Além disso, teve destacado papel político na recente história brasileira. Fato pouco sabido. E quase nada divulgado. Foi por iniciativa do círculo que se impetrou, ainda em outubro de 1988, o primeiro mandado de segurança coletivo da história brasileira, em defesa de milhares de servidores estaduais paulistas em greve, que queriam ter garantido o sagrado direito de reunião pacífica em frente ao Palácio dos Bandeirantes, época em que a polícia do governo Quércia reprimia os manifestantes com truculência.
Tudo começou com uma conjectura sobre mudanças havidas na nova Constituição. E terminou em uma ação judicial de grande repercussão no meio jurídico e na opinião pública. Também partiu do Círculo das Quartas-Feiras o primeiro grito pelo impeachment do então presidente Collor, assim que seu governo decretou medidas flagrantemente inconstitucionais, como o confisco da poupança.
O que era só uma revolta de um grupo de estudantes em torno de um professor ilustre transformou-se em ação de esclarecimento de inúmeros círculos políticos e jurídicos. Quando os escândalos de corrupção se avolumaram no noticiário, a cidadania brasileira foi às ruas pelo afastamento constitucional do presidente, e o impeachment se transformou em conversa de todos os grupos de pessoas reunidas informalmente em fábricas, escolas ou botecos.
Nem se imagine que as grandes mudanças começam como movimento de massa. Há sempre grupos que conspiram, positivamente, em busca de mudanças mais ou menos profundas do status quo. Às vezes por ação de indivíduos, as campanhas cívicas vão ganhando adeptos, e suas ideias chegam a tornar-se hegemônicas.
Jesus Cristo, por exemplo, de perseguido por seu ideal de justiça e fraternidade, passou a messias. Tiradentes, esquartejado, sagrou-se herói. Castro Alves e Luiz Gama, entre tantos outros, viraram líderes da abolição. É assim mesmo: o rastilho de pólvora uma hora se acende, aquece os corações e detona as mais inusitadas reações populares.
É sempre hora de arregaçar as mangas, buscar parceiros de convicções, começar uma conversa aqui e outra acolá. E ir à luta!

CASSIO SCHUBSKY, formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, editor e historiador, é organizador do livro “Estado de Direito Já! – Os Trinta Anos da Carta aos Brasileiros”.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2707200909.htm

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