FGV defende indicação política no Senado – jura?


Eu não compreendo o motivo de um país que tem USP, Unicamp, UNB, UFRJ, UFPE, UEL, UFRGS, UFPR, UFMG, UFSM, Unesp, UFAM, e UEM, ainda perder tempo consultando a opinião da FGV – e pagando caro por essa opinião.

O estudo relatado pela Folha indica que, em vez de reduzir a farra do emprego sem concurso público, vai se reduzir a quantidade de empregados por concurso e aumentar a percentagem dos indicados políticos . Leia-se “ode ao coronelismo e ao patrimonialismo”.

Não é de se espantar, pois a turma da indicação política e da apropriação do estado pelo patrimonialismo parece ser o perfil caro à FGV. Atualmente, por exemplo, está em curso a estruturação da sua faculdade particular de direito – mais uma em SP – a preços de prestação de BMW zero, onde se tem belos cursos com razoavelmente renomados professores da USP, alguns pósgraduandos brilhantes, além de outros professores de quem nunca ouvi falar.

Não digo que não sejam competentes. Mas são competentes do mesmo modo como o são os da Puc, Mackenzie, FMU, e quiçá, FAAP e Unip, pois ainda não podemos medir o resultado dos seus trabalhos – a primeira turma FGV não se formou – e justamente por isso, nunca ouvi falar.

A equivocada estratégia de marketing adotada foi grudar nos professores da USP, ao mesmo tempo em que se dinamita a reputação da nossa Faculdade quase bicentenária e forrada de méritos históricos. Em Teoria dos Jogos esta depredação é o que se chama de classificação 1-0. Em Biologia o 1-0 é a classificação da relação do parasita.

Um dos novos empregados da Fundação tem predileção por berrar que a USP não prepara para o mercado ao longo de todo o seu curso na USP. Ao mesmo tempo em que ensina teorias sobre sociologia modernas como o tempo de Schumpeter, e exibe slides de estatísticas com quase dez anos.

Neste ponto, eu concordaria com o berrador. Descobri ainda nos bancos escolares que a USP não me preparou para o mercado nas questões de sociologia, justamente porque eu parei no  tempo do taylorismo, e já existia o toyotismo. Mas isto eu descobri apenas depois de conversar com um administrador competente.

E também descobri que estatística com mais de uma década serve só para fazer história, não serve para analisar conjuntura atual. Contudo, isto eu também só descobri fora da aula de sociologia jurídica do Largo São Francisco, conversando sobre Estatística com alguns mais interessados.

Nesta matéria, confesso, não me preparei bem para o mercado dentro da faculdade. Mas não teria feito diferença estudar na FGV, porque o professor é o mesmo. E o mercado (europeu) pensa que a USP é bastante melhor que a FGV– e a Unisinos também – e com desempenho sempre ascendente.

Mas também não prejudiquei, porque se existe uma regra sem exceção na USP é que o aluno não se limita aos ensinamentos do professor – o docente é apenas uma boa referência passageira que pode ou não ajudar. O lendário Pátio das Arcadas, ao contrário é sempre uma porta aberta ao aprendizado.

Entretanto, em Direito Penal, Constitucional, Administrativo, e principalmente Direito Privado, a preparação dada pela USP foi para comer o mercado jurídico  frito, sem sequer  usar talher.

Felizmente Direito é tradição, não propaganda. E a diferença que faz estudar sob a influência dos mais respeitados privatistas, que sabem a fundo sobre as raízes da matéria, é o que diferencia no aprendizado.

Não há nada que pague ler sem restrições os livros que foram da biblioteca pessoal de Waldemar Ferreira e tentar descobrir se os rabiscos e anotações fora feitos pelo comercialista. Ou então ser a última turma do filósofo e comercialista Fabio Konder Comparato, ou discutir casos de direito comercial em uma sala que tem uma fotografia do italiano Tullio Ascarelli, provavelmente trabalhando na Casa em que estudamos, com um cachimbo na boca.

Fosse o Direito a ciência da Medicina, então seria ótimo aprender as práticas modernas, e as teses mais bizarramente inovadoras. Mas sendo pura tradição e assentamento da razoabilidade lógica, é vantagem estudar no Largo São Francisco, onde se aprende as bases históricas da ciência, lê-se na fonte aqueles que prepararam as bases do Direito Brasileiro, e descobre-se as boas referências técnicas,  para que se possa desenvolver as próprias teses autonomamente.

Melhor que isso, só estudando Direito Civil em Coimbra, e olhe lá, porque Coimbra não é fonte direta da história moderna do Brasil. Coimbra não fez o movimento modernista de 22 no vizinho Theatro Mvnicipal, nem fez a revolução de 32 com inscrições para a luta no Pátio dessas arcadas, nem leu a carta aos brasileiros enfrentando mais uma ditadura de peito aberto no Território Livre do Largo.

A FGV, como Coimbra também não construiu esta história. Assim como a Fundação Getúlio Vargas não fez ferrenha oposição contra Getúlio Vargas e sua ditadura populista sem vergonha – seja porque não existia, seja porque leva o nome do ditador.

Por isso, faço sugetão ao estudante indeciso, que ainda se pergunta entre a bobeira filosófica de estudar gratuitamente na USP ou ter uma “boa formação” na FGV. Esta é uma pergunta natural a quem desconhece a história e o funcionamento interno das instituições. Gaste seus 3 mil reais mensais estudando para entrar para a história da faculdade da História.

Depois, use a mensalidade economizada para doar 500 reais em livros para a Casa que vai te abrigar. Use outros dois mil reais para comprar os melhores livros para si, e para aprender inglês, francês, italiano e – por que não? – sueco.

E os demais quinhentos reais mensais, aplique nas ações da Petrobrás, retire ganho de capital e dividendos ao final do ano, some à última mensalidade e à matrícula economizada, e gaste sem dó para ir a Paris fazer cursos de férias na Sourbonne, para ler uma coisa ou outra em Harvard, e para descobrir nossas origens do Direito Privado em Coimbra.

Ao final do curso você terá deixado de colaborar com a dilapidação do patrimônio de todos que é a Universidade Pública. E estará muito melhor preparado do que qualquer aluno da FGV, pois compareceu às fontes, brasileiras e internacionais, por puro mérito. E se não estiver monstruosamente preparado, estará rico com as suas aplicações na Bovespa.

E, se ainda assim se convencer de que deveria ter ido para a FGV, inscreva-se em um negócio chamado PET-USP. Você se arranja indiretamente para entrar na FGV, e ainda ganha remuneração – não que seja compatível com a competência de quem se esforçou para estudar na USP.

O caminho inverso, contudo, da FGV para a USP, é bem mais árduo. Passa por uma seleção três vezes pior do que a Fuvest, pois recheada de política e necessidade de apresentar teses de mestrado, doutorado, e depois de livre-docência.

É por honraria a estudos e práticas comerciais como as demonstradas neste estudo e nessa breve história que eu prefiro consultar as pequisas da Fipe, IBGE, e demais órgãos públicos.

E estudarei economia na Unicamp ou USP. E para contratar um administrador,  FEA-USP, sem sombra de dúvidas. E para contratar um funcionário público, concurso público, e só. Indicação política eu deixo para os Sarneys e Collors.

E, aos calouros, quando perguntarem se estuda na Escola de Direito de São Paulo, diga que sim, e que foi fundada em 1827 por decreto imperial, e eternizada pelos seus poetas. Não há departamento de marketing que possa apagar a História:

“Perdoai-me, leitor, se até agora
Nada vos tenho dito a meu respeito,
Quando esta história passa-se era moço
E estudava a ciência do direito.

Pode bem ser que o livro não abrisse,
Que não votasse amor à sábia casta,
Mas tinha o nome inscrito entre os alunos
Da Escola de São Paulo e é quanto basta.

(Fagundes Varela, Parêntesis – Arcadas, década de 1860)

FGV defende indicação política no Senado

Servidores de carreira da Casa são principal alvo de reforma administrativa, que propõe demissão voluntária para mais de 3.000

Promessa é de redução de R$ 376,4 milhões nos custos administrativos; número de funcionários terceirizados também ficaria 30% menor

ADRIANO CEOLIN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Relatório apresentado ontem pela FGV (Fundação Getulio Vargas) para reforma administrativa do Senado sugere cortes de pessoal que privilegiam funcionários comissionados (indicados por políticos) em detrimento de servidores concursados. A promessa é reduzir em R$ 376,4 milhões os custos administrativos da Casa.
“O Senado é uma casa política. A lógica dela não é de organizações do Executivo. Na composição dos gabinetes prevalecem as atividades levadas a efeito de funcionários de confiança dos senadores”, afirmou Bianor Cavalcanti, consultor responsável pelo relatório.
Hoje o Senado tem 2.864 funcionários comissionados, segundo dados da própria Casa. A proposta prevê limitar o número de indicações políticas para 25 pessoas por gabinete, uma redução de cerca de 13%.
O principal alvo do relatório, porém, são os servidores de carreira. Ele propõe a realização de um PDV (Plano de Demissão Voluntária) para 20% do total de concursados: 3.337, segundo dados do Senado.
Outra proposta que beneficia os comissionados é a possibilidade de as vagas de chefia de gabinete serem ocupadas por pessoas fora do quadro de concursados. Atualmente, só quem passou em concurso público pode ser chefiar um gabinete.
A FGV também defende a suspensão de concursos para preenchimento de vagas decorrentes de demissão, morte ou aposentadoria de funcionários de carreira. A entidade também prevê controle de frequência e carga horária “para todos servidores efetivos”, mas sem mencionar os comissionados.
De todos os cortes, o que mais incomodou os servidores foi a redução do número de FCs (Funções Comissionadas), que dão direito a adicionais salariais para funcionários com cargos de chefia. Servidores ouvidos pela Folha calculam que o corte deve chegar a 2.600.
O número de funcionários terceirizados também será reduzido em 30%. Ao mesmo tempo, a FGV propõe terceirização dos serviços da Gráfica do Senado, que já foi denunciada por gastos exorbitantes.
Principal alvo de críticas, o número de diretorias do Senado será reduzido a apenas seis, conforme propõe a FGV. Em março, foi revelado que a Casa abrigava 181 diretorias, algumas delas ocupadas apenas pelo próprio diretor.
Para a FGV, o Senado possui atualmente 41 diretorias. A redução proposta é de 85%. A entidade sugere ainda que o diretor-geral, o diretor de Controle Interno e o advogado-geral tenham os nomes aprovados pelo plenário.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1908200913.htm#

O espírito das Arcadas:

Uma resposta para FGV defende indicação política no Senado – jura?

  1. Renato disse:

    Matou a pau. É tudo isso aí isso mesmo.

    Obrigado por lavar nossa alma! hehe

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